Artigo

Processos que só existem na cabeça de alguém

Pede a uma empresa o processo de faturação, de receção de mercadoria ou de resposta a um incidente.

Na maioria dos casos, a resposta é uma pessoa:

“isso explica-te a Marta.”

A Marta explica bem.

Mas repara no que isso significa:

👉 o processo não pertence à empresa. Pertence à Marta.


“Está tudo na prática”

O argumento contra documentar é sempre o mesmo:

“nós sabemos como se faz, está na prática de toda a gente.”

Três problemas:

  1. “toda a gente” faz de maneira ligeiramente diferente
  2. os novos aprendem por imitação — incluindo os erros
  3. quando a prática falha, não há referência para corrigir

Um processo não escrito não pode ser melhorado.

Só pode ser recordado.


O que documentar (e o que não)

Documentar não é escrever manuais de 50 páginas que ninguém lê.

É o contrário:

  • uma página por processo, no máximo
  • os passos, quem faz, o que acontece nas exceções mais comuns
  • onde está: sistema, pasta, quadro — desde que toda a gente saiba

Um processo documentado de forma imperfeita vale mais do que um processo perfeito na cabeça de alguém.

O primeiro pode ser corrigido por qualquer pessoa.

O segundo desaparece com um pré-aviso de 30 dias.


O teste da página em branco

Escolhe um processo crítico e tenta escrevê-lo numa página.

Vais descobrir uma destas coisas:

  • é simples e ninguém tinha escrito — 20 minutos bem gastos
  • é mais complicado do que parecia — acabaste de encontrar as exceções que causam os erros
  • não há acordo sobre como se faz — acabaste de encontrar a causa de uma discussão recorrente

Qualquer dos resultados é lucro.


Conclusão

Sistemas, auditorias, certificações, IA — tudo assenta no mesmo alicerce:

processos que existem fora da cabeça das pessoas.

Se não está escrito, não é um processo.

É um costume.

E os costumes saem pela porta com as pessoas.