Artigo
Stocks errados não são um problema de armazém
“O stock do sistema nunca bate certo.”
Ouço esta frase há anos, em empresas de todos os tamanhos.
E quase sempre acompanhada da mesma conclusão:
“o pessoal do armazém não regista bem.”
Às vezes é verdade.
Quase nunca é a causa.
Onde o erro nasce
O stock errado é o fim de uma cadeia que começa muito antes do armazém:
- receções registadas horas (ou dias) depois de a mercadoria entrar
- saídas que “depois se regularizam”
- devoluções sem processo definido
- artigos com códigos duplicados
- unidades de medida trocadas entre compra e venda
- acertos de inventário feitos por hábito, sem investigar a causa
Cada um destes pontos é uma decisão de processo.
Nenhum se resolve com “mais cuidado”.
O ciclo vicioso
Stock errado gera um padrão conhecido:
- o sistema diz uma coisa, a prateleira diz outra
- as pessoas deixam de confiar no sistema
- começam a confirmar fisicamente antes de vender
- como o sistema “não vale nada”, o rigor no registo baixa ainda mais
- o stock fica ainda mais errado
A desconfiança no sistema torna-se autoalimentada.
E a empresa passa a pagar inventários permanentes: pessoas a contar o que o sistema devia saber.
Por onde começar
Não é pela contagem geral — essa corrige o número de hoje e deixa intactas as causas de amanhã.
É pelo movimento:
👉 cada entrada e cada saída registada no momento em que acontece, por quem a faz.
Depois:
- um processo definido para cada tipo de movimento (receção, expedição, devolução, quebra)
- acertos de inventário sempre com causa identificada
- indicadores simples: quantos acertos, onde, porquê
O stock certo é consequência.
Conclusão
O armazém é onde o stock errado aparece.
Raramente é onde nasce.
Antes de culpar quem regista, vale a pena perguntar:
👉 o processo torna fácil registar bem — ou torna inevitável registar mal?